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O fim do objeto artístico?
Desde que o pós-modernismo assumiu a cena cultural, a partir da pop arte, tem-se discutido, com razão, o fim do objeto artístico, trocado por uma arte efêmera, reproduzida em fotos, vídeos e livros. Embora a definição do que é pós-modernismo nunca seja consensual, o conceito domina o panorama cultural. Serve para explicar muita coisa e muita coisa serve para não explicá-lo. As belas esculturas de Richard Serra, por exemplo, expostas “in site”, aparentemente, se opõem à possibilidade de deslocamento da escultura moderna. Ao menos, é esta a argumentação do escultor americano. Obras modernas, como a cívica “Coluna Infinita”, de Constantin Brancusi, também não podem ser deslocadas, embora o romeno seja um dos pioneiros do modernismo. O stabile de Calder, em Chicago, foi feito para o local. Ele foi um artista modernista. As definições no campo do pós-modernismo parecem jogos de azar. Às vezes, sai bingo. Outras vezes, não. De qualquer forma, existe um clima, não só no Brasil, mas no exterior também, de oposição à deliqüescência da materialidade do objeto artístico.
Houve, a partir dos anos 80 e 90, quando a arte novamente parecia mergulhar em uma de suas constantes crises, um fenômeno só agora inteiramente perceptível. Quando boa parte das pessoas estava acompanhando o enterro da arte (a pintura já era missa de sétimo dia), nunca se criou, em quase todo o planeta, uma quantidade enorme de centros de arte, fora novos museus. A demanda sobre o que colocar lá dentro – o que outrora avalizava o gosto de uma época –, foi deslocada, porque eram necessárias obras que evitassem que aqueles prédios novos não passassem por mausoléus. A quantidade imensa de artistas, da qual as bienais apenas fornecem uma pálida idéia, talvez os obrigue a uma linguagem padrão, normativa, que possa agradar, sem esforço, à mais nova profissão em torno da arte, conseqüência da superpopulação de artistas e de centros culturais: a sua excelência, o curador. Tanto os museus tornaram-se espetáculos que pouco importa o que se mete dentro deles – é o caso do museu de Bilbao –, quanto os curadores, e não mais os críticos e os poetas, são obrigados a cercear, limitar e divulgar algum tipo de forma de arte.
Há obras feitas para curadores e curadores feitos para obras. Depois, a geração que assumiu tais cargos começou a interessar-se e formar-se em arte, a partir dos anos 70 – ou seja, o da canonização de dois astros da suposta destruição da arte: Marcel Duchamp e Joseph Beuys. Não tinham conhecimento nem do alto modernismo e nem cultura geral para a compreensão do que foi a arte produzida no passado. Além disso, o historicismo é difícil de superar, até mesmo devido à sua facilidade, e, deve-se dizer, de sua fragilidade teórica. O encontro dos centros culturais e dos novos museus com os curadores produziu um efeito que ainda se prolonga no meio artístico: qualquer coisa é arte. O pós-modernismo, neste caso, não passa de um populismo niilista.
Depois que happenings e performances deixaram de ser engraçados, a instalação ocupou, até na maioria dos casos, a nova forma populista de exibição: mexe-se nela, anda-se, escuta-se barulhinhos, morde-se alguma coisa, sente-se o vento, somos obrigados a andar descalços, etc, o que tornou os museus e centros culturais verdadeiros playgrounds para alegrar o adulto idiotizado e a criança “criativa”. É fácil, também para boa parte dos curadores, garantir que estão oferecendo sensações. Não é isso o que um dia a arte tentou vender? Há um outro fator: alguns curadores estão ligados ao mercado como imãs à geladeira.
É claro que nem tudo é desastre. Apesar da maré baixa, há excelentes artistas mostrando sua arte. Curiosamente, mesmo os mais inventivos – como os “novos de meia-idade” escultores ingleses – não destruíram o objeto artístico nem o prazer que eles oferecem. Isto quer dizer que, independente da vazante da arte, artistas de qualidade acabam tendo algum elo com a tradição. O velho Richard Serra – com passagem na “arte povera” – continua sendo bom exemplo. Brasileiros como Ângelo Venosa e Nuno Ramos fazem bons trabalhos. Recentemente, tempos a presença de José Bechara e Ernesto Neto, além do talento de José Damasceno. É certo que obras dos anos 60 e 70 podem agora ser avaliadas com mais severidade e a crítica pode questionar se tudo que Cildo Meireles – um “conceitual” expressionista – ou Waltercio Caldas – um “leitor” de Magritte e muito design – fizeram são obras de real qualidade. Algumas outras não são. Além disto, há palavras de Fernando Pessoa, quando um poeta de sucesso bateu as botas: “Quando morreu, morreu mesmo”. Isto serve para muito artista midiático e de obra volátil. Embora haja sempre boas notícias, o sistema funciona – e mal. A “experimentação”, da qual a instalação tem o demérito de servir, transformou-se num gênero acadêmico. O academicismo não é mera palavra para denegrir uma espécie de arte, mas um sistema orgânico que começa pelas aulas “criativas” para crianças (o educador cisma em vesti-las com parangolés de papel crepom), passa pela universidade (substituta da Academia de Belas Artes) com seus cursos – pasme – de pós-graduação para artistas, vai para o mercado e encontra-se, em museus e centros de arte, com a figura do curador.
Wilson Coutinho
(crítico de arte)
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| 07 Março 2009 |
originally added by : Wilson Coutinho |
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